Acabo de reler a revista Eclésia
de janeiro de 2001 onde me deparei com a matéria de Carlos Fernandes intitulada:
“Como água e óleo” (p. 50 a 58). Através dela se pretende mostrar que doutrinas
antagônicas separam evangélicos de adventistas.
Acredito que Fernandes seja um
jornalista, pelo menos é o que posso perceber na sua maneira de escrever.
Em linhas gerais o autor parece
ser isento, apenas se limitando a colocar as posições adventistas de um lado
e a dos evangélicos do outro. Digo em linhas gerais pois de vez em quando
ele deixa de ser repórter e se comporta como um “militante” evangélico. O
que chega em alguns pontos a tirar a credibilidade do material.
Tergiversações à parte o artigo merece alguns esclarecimentos,
o que faço a seguir:
1. A Matéria
contém imprecisões históricas:
É uma pena que os escribas que
escrevem sobre o adventismo não bebam em fontes seguras e primárias. Por primárias,
eu entendo como sendo livros e artigos escritos por pessoas isentas de preconceito
e que não escreveram baseados em mitos sobre os adventistas e sua história.
Hoje muitos opúsculos, que estão
nas prateleiras de muitas livrarias, na verdade são cópias de cópias, e não
refletem a verdade. Quase todos seguem o “trilho do bezerro doente”. Um escreveu
e os outros se limitaram a copiar sem investigação acurada.
Infelizmente o senhor Fernandes
caiu neste canto da sereia que é pesquisar pouco para escrever. Senão vejamos:
Ele diz na p. 51 que Willian Miller “criou o Movimento do Advento” em meados
do século 19. Á primeira vista é isto mesmo. Mas as coisas não são bem assim.
O Movimento do Advento teve
seus fundadores em vários continentes com a participação de várias religiões.
Por exemplo na América do Sul um sacerdote católico escreveu um livro sobre
o segundo advento de Cristo. (“La venida del Messias”). Seu nome era Manuel
Lacunza, um jesuíta.
José Wolf, um judeu cristão,
também pregou a segunda vinda de Cristo na Europa e no Oriente Médio, e foi
até perseguido por isso.
Mas, o interessante é que ninguém
fala deles. Centram-se só em Miller como a dizer que ele era um desvairado
marcador de datas para a volta de Jesus. Miller era um pesquisador sincero
das Escrituras. Teve avanços significativos, e redescobriu pontos da Bíblia
esquecidos pelos religiosos de sua época.
Aliás, o artigo diz que quando
Jesus não voltou em março de 1843, Miller teria “refeito os cálculos” e chegado
à conclusão de que a data seria 22 de outubro de 1844. De novo o Sr. Carlos
Fernandes leu na fonte errada. Na verdade quem “refez o cálculo” não foi Miller,
mas seus colaboradores, entre eles Samuel Snow. Para Miller o mais importante
não era a data, mas a volta do Senhor.
Ainda outro erro histórico:
Com o desapontamento de 1844 o movimento fragmentou-se em vários grupos.
O grupo dos que desanimaram
e abandonaram a fé foi grande; o segundo foi o grupo do “status quo” que continuou
a marcar datas para a vinda de Cristo. E o terceiro grupo foi um formado por
conjunto de estudiosos da Bíblia que com oração e lágrimas descobriu as verdades
bíblicas até então desconsideradas. Este grupo é que em maio de 1863 tornou
se a Igreja Adventista do Sétimo Dia.
Os três grupos não se “uniram
para formar a Associação Geral das Igrejas Adventista do Sétimo Dia”, como
quer o articulista. (p. 52).
A Igreja Adventista não surge
de alguma briga de líderes por causa do poder eclesiástico, mas por um grupo
que entendeu que Deus os chamou para pregar uma mensagem bíblica cristocêntrica
e equilibrada.
Ellen White teve participação
no desenvolvimento da doutrina, mas não foi ela quem “lançou as bases da fé
adventista” como apregoa a revista Eclésia.
Pessoas piedosas estudaram profundamente
as Escrituras e chegaram às conclusões sobre pontos doutrinários. Ellen com
suas visões apenas confirmou ou retificou o que já se havia estudado.
2. A matéria
contém distorções sobre as doutrinas adventistas.
Em minha experiência de cristão
aprendi que nem sempre uma heresia é exatamente uma doutrina errada, mas pode
ser uma ênfase errada numa doutrina certa.
Propositalmente
ou não é o que o acontece quando muitos dos chamados “especialistas em apologética”
falam ou escrevem sobre doutrinas adventistas.
Por exemplo,
o Sr. Roque Carvalho, um dos entrevistados diz o seguinte sobre a maneira
como os adventistas vêem a questão da salvação: “Se a salvação, para eles,
depende da obediência à lei do Antigo Testamento, então a graça de Deus não
faz sentido” (p. 58). Ele então desafia: “É possível ser meio cristão?”. Que
argumentação paupérrima e descabida!
Os adventistas
não crêem em salvação pelas obras da lei. Vamos colocar as coisas nos devidos
lugares.
A Igreja Adventista
crê na salvação pela graça por meio da fé em Cristo (Efésios 2:8). Entende
também que sendo perdoada e justificada por Cristo (Romanos 5:1) a pessoa
agora guarda pela fé, os mandamentos de Deus. Pois fé sem obras é morta (Tiago
2:17).
A grande dificuldade
de alguns é entender a verdadeira função da lei moral de Deus na vida do cristão.
Eles ficam
confusos quando lêem Paulo: “ Ninguém será justificado diante dele por obras
da lei...” (Romanos 3:20) e logo a seguir “a lei é santa e o mandamento, santo
e justo e bom.” (Romanos 7:12).
Afinal Paulo
era contra ou a favor da lei? Um estudo isento de preconceitos e dentro de
princípios hermenêuticos mostrará que Paulo era contra o mau uso da lei de
Deus. Na sua época pessoas achavam que cumprindo os preceitos seriam salvos
e deixavam Jesus de lado. Para Paulo a lei mostra o pecado (Romanos 3:20),
e como um aio (um ajudador) conduz o pecador a Cristo (Gálatas 3:24) a fim
de este ser justificado pela fé.
Desta forma
o apóstolo não descartou a lei, mas colocou-a no seu devido lugar: mostrar
o pecado.
Todavia, o
problema está com os que param por ai e dizem: Paulo nos desobriga de guardar
a lei...
Ledo engano.
O mesmo escritor sagrado diz que os “simples ouvidores da lei não são justos
diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados” (Romanos
2:20).
Estaria ele
(Paulo) pregando salvação pela lei? De forma alguma. Ele apenas está dizendo
que os que guardam a lei o fazem depois de terem uma experiência de salvação
com Jesus Cristo e sua graça.
Portanto,,
para os adventistas guardar a lei não é um meio
de salvação, mas uma conseqüência
de salvação.
Alguns parecem
dizer que estar salvo em Cristo é o mesmo que desobedecer a lei. Isto é um
absurdo que nem os oponentes gratuítos do adventismo aceitariam.
Teimam em distorcer
este assunto. Talvez por medo de seus fiéis compreenderem esta verdade bíblica
e eles perderem suas gratificantes funções de “intérpretes da lei.” Os escribas
modernos usam do Velho Testamento só o que lhes interessa. Quando o assunto
é dízimo logo eles correm para Levíticos, Deuteronômio e Malaquias. Mas quando
se fala em sábado dizem que ele foi abolido...
Outro exemplo
de distorção ficou por conta do Pr. Natanael Rinaldi. Duas coisas ditas por
ele merecem uma explicação maior. A primeira é com respeito a Miguel ser igual
a Cristo. Na verdade Miguel é um dos nomes de Cristo na Bíblia. Como um razoável
conhecimento de hebraico se concluí que o nome Miguel quer dizer: “Quem é
igual a Deus?”
E, a resposta
natural seria esta: Quem é igual a Deus, só Jesus Cristo. Portanto, diferente
do que expõe Rinaldi, dizer que Miguel é um nome de Cristo na Bíblia não relativiza
a deidade de Cristo, mas a confirma. Para o adventismo Jesus Cristo é Deus
pleno (Colossenses 2:9).
É provável
que alguma autoridade do Instituto Cristão de Pesquisas ainda fique com dúvidas
e argumente dizendo que a Bíblia fala de Miguel como um arcanjo e não como
Cristo. Pois bem, seria interessante lembrá-lo de que a palavra bíblica para
anjo também quer dizer “mensageiro”. E, Jesus Cristo foi o mensageiro de Deus
para a humanidade. Em Cristo está a maior revelação de Deus Pai (Hebreus
1:1 e 2). E ainda mais, devemos recordar que ao identificar Jesus como o
“Arcanjo Miguel”, a Bíblia não o torna um mero anjo, como também não o transforma
em animal ao identificá-lo como um “Cordeiro” (João 1:29) ou como um “leão”
(Apocalipse 5:5).
Algo mais:
Miguel em Daniel 12:1 e 2 aparece para defender o povo de Deus e de acordo
com o profeta ocorre uma ressurreição como conseqüência disto. Será que um
anjo pode ressuscitar mortos? Este Miguel deve ser mais do que um anjo...
Outra afirmação
infeliz: “Os adventistas consideram que Cristo adentrou no santuário celeste
em 1844...”.
Quem disse
isto? Onde Rinaldi encontrou tal afirmação?
A literatura
adventista deixa claro que Cristo pode ir (e foi) ao lugar santíssimo do santuário
celeste desde sua ascensão ao céu. O que se destaca é que em 1844 (segundo
a profecia de Daniel 8:14) Jesus iniciou a fase do santíssimo no santuário
celestial. Todavia, Ele sempre trabalhou em nosso favor, como intercessor.
Os adventistas não limitam a Cristo.
Sobre este
ponto seria saudável dizer que embora a obra de salvação foi completa na cruz
do calvário seus efeitos serão sentidos por toda a eternidade.
Alguns não
entendem porque Jesus hoje está ministrando no Santuário Celestial (Hebreus
8:1 e 2) como sumo sacerdote se Ele já fez tudo na cruz.
Eles não entendem
que a salvação é um plano completo. Ela envolve nascimento, a vida impecável
de Cristo, sua morte na cruz, sua ressurreição, sua intercessão, e o juízo
no santuário celestial e a sua segunda vinda para fazer o juízo final.
A mesma Bíblia
que diz que quem não crê em Cristo “já
está julgado (João 3:18), também diz que Deus
“estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça...” (Atos 17:31).
Portanto, ao
se falar sobre a obra de Cristo na cruz, temos que enfatizar todos os atos
do Senhor antes e depois dela. A cruz é o centro, e o centro deve ser um ponto
de atração de todos os demais atos do plano de salvação, sem anulá-los.
Deveria parar
aqui, mas Rinaldi tem outra afirmação infeliz: “os ensinos de Ellen White
deixam claro que o salvador não é Cristo, e sim, Satanás, já que sobre eles
seriam lançados os pecados, à semelhança do bode emissário descrito no livro
de Levítico” (P. 52).
O arguto pesquisador
certamente está por dedução tentando distorcer a aplicação adventista sobre
o bode por Azazel (Levíticos 16:8).
Azazel e o
bode emissário representam a mesma coisa. No original hebraico está exatamente
assim: “E lançará Arão sorte sobre os dois bodes. Uma sorte para Javé e outra
sorte para Azazel.”
Comentando
este texto diz o comentário evangélico (não adventista) The New Schaff-Herzog
Encyclopedia of Religious Knowledge: “Partindo do fato de que há um contraste
entre expressões ‘para Jeová’ ‘para Azazel’, supõem muitos que Azazel seja
um nome oposto a Jeová, um monstro do deserto, um demônio, ou diretamente
Satanás... O contraste entre ‘para Jeová’ e ‘para Azazel’ favorece a interpretação
de Azazel como substantivo próprio, sugerindo em si mesmo, uma referência
a Satanás.”
Desta maneira
o bode emissário (Azazel) é visto como o próprio Satanás. Porém a acusação
é de que os adventistas por interpretarem assim Levítico 16 estão dizendo
que o diabo é o salvador, e não Cristo. Não sei onde se lê esta afirmação
nos livros adventistas.
Para os adventistas
Azazel (Satanás) não participa da expiação. Ele não é o Salvador, pois ele
não derramou seu sangue. Isto é concluído a partir de uma leitura bem feita
de Levítico 16:9 e 10. O verso 9 fala do bode “para o Senhor” (que simbolizava
Cristo) que era o único que tinha o seu sangue derramado. “Sem derramamento
de sangue não há remissão” (Hebreus 9:22). O verso 10 fala do bode emissário
(Azazel) cujo sangue não era derramado, em resumo ele não era oferecido em
sacrifício pelo pecado. Ele apenas simbolicamente carregava os pecados do
povo e morria no deserto sem derramar sangue.
O bode emissário
prefigura Satanás que vai morrer, não para perdoar pecados, mas por causa
dos pecados que cometeu e induziu pessoas a cometer (Apocalipse 20:7 e 10).
Portanto, dizer
que por esta interpretação de Levítico 16 os adventistas crêem em Satanás
como salvador é um absurdo que se petrifica no absurdo.
Satanás não
é, nem nunca foi nosso salvador. A Igreja Adventista do Sétimo Dia nunca
ensinou isto.
Conclusão:
Muita coisa ainda poderia ser
dita sobre a polêmica matéria da revista evangélica.
Porém, gostaria de fazer mais
duas explicações e depois uma pergunta:
a. Estado do homem na morte:
Na Bíblia a
alma significa a pessoa total. O homem não tem uma alma, ele é uma alma. Gênesis
2:7 diz que da junção de fôlego de vida e pó da terra o homem foi feito “alma
vivente”. Não veio uma “alma” e entrou dentro dele, mas ele inteiro passou
a ser uma alma. Alma significa a pessoa inteira. A morte seria a desintegração
da alma. O pó volta à terra e o espírito (ruach no hebraico = fôlego de vida)
volta para Deus (Eclesiastes 12:7).
Há várias razões
par se crer que a alma é mortal:
1. “A alma
que pecar esta morrerá” Ezequiel 18:4
Ezequiel não
está falando figurativamente (ou espiritualmente apenas). Ele está falando
de pessoas e situações reais (leia também Ezequiel 18:1 a 9).
2. A única
vez que a palavra imortal aparece na Bíblia é atribuída a Deus (I Timóteo
1:17).
3. A idéia
de uma alma imortal é de origem pagã. Os gregos transmitiram para os judeus
e esta pregação anti-bíblica chegou até os cristãos.
4. O inferno
como lago de fogo acontecerá no fim (Apocalipse 20:14).
A palavra inferno
quer dizer sepultura ou lugar inferior. O credo dos apóstolos diz que Jesus
morreu e desceu aos infernos (sepultura). Só uma perguntinha: Se as pessoas
que morrem hoje já vão para o céu ou para o inferno de condenação, por que
Deus terá que realizar um juízo final? Afinal de contas já não estão todos
julgados? Quando a Bíblia usa a palavra inferno no sentido de fogo o faz
referindo-se ao lago de fogo no fim.
b. A questão do adventismo como seita.
A questão do
adventismo ser ou não uma seita não me preocupa. Explico porque: Nem sempre
a palavra seita tem uma conotação ruim ou desastrosa. Os “especialistas em
apologética” que usam de forma indiscriminada esta palavra para ofender o
adventismo certamente estudaram a história do cristianismo.
Em seus primórdios
a igreja cristã nada mais era do que uma seita rejeitada do judaísmo. Nem
por isso o cristianismo deixou de ser a fé verdadeira.
Se continuarmos
a pesquisa veremos que o mesmo ocorreu com a reforma protestante do século
16. Lutero, Calvino e outros eram considerados uma “seita do diabo” por aqueles
que detinham as “chaves do céu e do inferno”: a igreja oficial.
Apesar de os
adventistas se considerarem cristãos por crerem nas doutrinas essenciais do
cristianismo, eles empunham a bandeira de doutrinas que tem sido esquecidos
pelos chamados cristãos evangélicos em nossos dias.
Walter Martin,
conhecido autor batista do livro The Kingdon of the Cults, depois de uma exaustiva
pesquisa sobre doutrinas adventistas concluiu que embora a igreja tenha doutrinas
distintivas, ela ainda pode ser cristã por proclamar verdades básicas do cristianismo.
Apesar disto
ser chamado de seita por uma causa justa não é ruim, mas um testemunho da
verdade no tempo do fim.
c. Uma última pergunta:
Durante toda
a reportagem se falou de um aparente confronto entre a igreja adventista e
os evangélicos.
Mas, perdoem-me
a pergunta incisiva: De que povo evangélico estamos falando? Confesso que
tenho dúvidas sobre quem são de fato os verdadeiros evangélicos em nossos
dias.
Às vezes acho
que são os protestantes históricos que receberam um legado maravilhoso dos
homens de Deus que foram os precursores da fé. Mas, desisto de pensar assim,
pois algumas destas igrejas estão mais ligadas a uma filosofia e teorias de
teólogos do que na Bíblia. O princípio de “sola scriptura” substituído por
teorias e métodos racionalistas de estudo bíblico. O fervor missionário de
algumas correntes tem estado em queda e em alguns países templos tem sido
vendidos por absoluta falta de assistência dos fiéis que perderam a fé e a
devoção.
Às vezes chego
a pensar que são os queridos e fervorosos irmãos pentecostais. Mas infelizmente
alguns se limitam apenas a uma interpretação unilateral dos dons do espírito.
Onde estão
as outras doutrinas bíblicas? A fé muitas vezes é baseada só na emoção em
detrimento de um “Assim diz o Senhor”.
Será que por
evangélicos devo entender alguns (não todos) políticos que usam o nome de
evangélicos para conseguir votos dos de boa fé?
Será que evangélicos
são alguns (não todos) pregadores do rádio e da televisão que fazem um império
na terra e vivem fugindo da Receita Federal como o diabo foge da cruz?
Ou evangélicos
serão alguns pregadores que gostam de estar de bem com todos fazendo um discurso
politicamente correto, e não raro estando envolvidos em escândalos financeiros
e sexuais manchando o nome de Cristo?
Seriam evangélicos
determinados “artistas” que continuam vivendo como sempre viveram e se declaram
evangélicos nas entrevistas?
Sinceramente,
ser evangélico é viver o evangelho de Cristo. Alguns tipos de evangélicos
não me fascinam.
Simplesmente
ter o nome de evangélico pode não significar nada. Parafraseando Paulo eu
diria: “Evangélico ou não evangélico não importa, mas sim ser uma nova criatura”.
Autor: Pr. Moisés Mattos – MIPES - USB