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Patmos
Atos dos Apostolos - Pág. 568
Mais de meio século havia passado desde a organização
da igreja cristã. Durante esse tempo a mensagem do
evangelho tinha sofrido constante oposição.
Seus inimigos jamais afrouxaram os esforços, e afinal
alcançaram êxito em arregimentar o poder do imperador
romano contra os cristãos.
Na terrível perseguição que se seguiu,
o apóstolo João muito fez para confirmar e fortalecer
a fé dos crentes. Ele deu um testemunho que seus adversários
não puderam controverter, e que ajudou seus irmãos
a enfrentar com lealdade e coragem as provas que lhes sobrevieram.
Quando a fé dos cristãos lhes parecia vacilar
sob a feroz oposição que eram forçados
a enfrentar, o velho e provado servo de Jesus lhes repetia
com poder e eloqüência a história do Salvador
crucificado e ressurgido. Mantinha firmemente a fé,
e de seus lábios brotava sempre a mesma alegre mensagem:
"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o
que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e
as nossas mãos tocaram da Palavra da vida... o que
vimos e ouvimos, isso vos anunciamos." I João
1:1-3.
João alcançou avançada idade. Testemunhou
a destruição de Jerusalém e a ruína
do majestoso templo. Último sobrevivente dos discípulos
que haviam privado intimamente com o Salvador, sua mensagem
teve grande influência em estabelecer o fato de que
Jesus é o Messias, o Redentor do mundo. Ninguém
poderia duvidar de sua sinceridade, e através de seus
ensinos muitos foram levados a deixar a incredulidade.
Os príncipes dos judeus encheram-se de ódio
atroz contra João por sua inamovível fidelidade
à causa de Cristo. Declararam que de nada valeriam
seus esforços contra os cristãos enquanto o
testemunho de João soasse aos ouvidos do povo. Para
que os milagres e ensinos de Cristo fossem esquecidos, a voz
da ousada testemunha teria de ser silenciada.
João foi por conseguinte convocado a Roma para ser
julgado por sua fé. Aqui perante as autoridades, as
doutrinas do apóstolo foram deturpadas. Falsas testemunhas
acusaram-no de ensinar sediciosas heresias. Por essas acusações
esperavam seus inimigos levar em breve o discípulo
à morte.
João respondeu por si de maneira clara e convincente,
e com tal simplicidade e candura que suas palavras tiveram
efeito poderoso. Seus ouvintes ficaram atônitos com
sua sabedoria e eloqüência. Porém, quanto
mais convincente seu testemunho, mais profundo era o ódio
de seus opositores. O imperador Domiciano estava cheio de
ira. Não podia contrafazer as razões do fiel
advogado de Cristo, nem disputar o poder que lhe acompanhava
a exposição da verdade; determinou, contudo,
fazer silenciar sua voz.
João foi lançado dentro de um caldeirão
de óleo fervente; mas o Senhor preservou a vida de
Seu fiel servo, da mesma maneira como preservara a dos três
hebreus na fornalha ardente. Ao serem pronunciadas as palavras:
Assim pereçam todos os que crêem nesse enganador,
Jesus Cristo de Nazaré, João declarou: Meu Mestre
Se submeteu pacientemente a tudo quanto Satanás e seus
anjos puderam inventar para humilhá-Lo e torturá-Lo.
Ele deu a vida para salvar o mundo. Considero uma honra o
ser-me permitido sofrer por Seu amor. Sou um homem pecador
e fraco. Cristo era santo, inocente, incontaminado. Não
pecou nem se achou engano em Sua boca.
Estas palavras exerceram sua influência, e João
foi retirado do caldeirão pelos mesmos homens que ali
o haviam lançado.
De novo a mão da perseguição caiu pesadamente
sobre o apóstolo. Por decreto do imperador foi João
banido para a ilha de Patmos, condenado "por causa da
Palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo".
Apoc. 1:9. Aqui, pensavam seus inimigos, sua influência
não mais seria sentida, e ele morreria, afinal, pelas
privações e sofrimentos.
Patmos, uma ilha árida e rochosa no mar Egeu, havia
sido escolhida pelo governo romano para banimento de criminosos;
mas para o servo de Deus sua solitária habitação
tornou-se a porta do Céu. Aqui, afastado das cansativas
cenas da vida, e dos ativos labores dos primeiros anos, ele
teve a companhia de Deus, de Cristo e dos anjos celestiais,
e deles recebeu instrução para a igreja por
todo o tempo futuro. Os eventos que teriam lugar nas cenas
finais da história deste mundo foram esboçados
perante ele; e ali escreveu as visões recebidas de
Deus. Quando sua voz não mais podia testificar dAquele
a quem amara e servira, as mensagens que foram dadas nessa
costa desolada deviam avançar como uma lâmpada
que arde, declarando o seguro propósito do Senhor concernente
a cada nação da Terra.
Entre as rochas e recifes de Patmos, João manteve comunhão
com seu Criador. Recapitulou sua vida passada, e ao pensamento
das bênçãos que havia recebido, a paz
encheu-lhe o coração. Ele vivera a vida de um
cristão, e pudera dizer com fé: "Sabemos
que passamos da morte para a vida." I João 3:14.
Não assim o imperador que o banira. Este olharia para
trás e encontraria apenas campos de batalha e carnificina,
lares desolados, lágrimas de órfãos e
viúvas, o fruto de seu ambicioso desejo de proeminência.
Em seu isolado lar, João estava habilitado a estudar
mais intimamente do que nunca as manifestações
do poder divino como reveladas no livro da natureza e nas
Páginas da Inspiração. Era para ele um
deleite meditar sobre a obra da criação, e adorar
o divino Arquiteto. Em anos anteriores seus olhos tinham-se
deleitado na contemplação dos morros cobertos
de florestas, dos verdes vales e frutíferas planícies;
e nas belezas da natureza sempre se deleitara em considerar
a sabedoria e habilidade do Criador. Agora estava circundado
por cenas que poderiam parecer a muitos melancólicas
e desinteressantes; mas para João representavam outra
coisa. Embora o cenário que o rodeava fosse desolado
e árido, o céu azul que o
cobria era tão luminoso e belo como o céu de
sua amada Jerusalém. Nas rochas rudes, e ermos, nos
mistérios dos abismos, nas glórias do firmamento
lia ele importantes lições. Tudo trazia mensagem
do poder e glória de Deus.
Em tudo ao seu redor via o apóstolo testemunhas do
dilúvio que inundara a Terra porque seus habitantes
se aventuraram a transgredir a lei de Deus. As rochas que
irromperam da Terra e do grande abismo pelo irromper das águas,
traziam-lhe vividamente ao espírito os terrores daquele
terrível derramamento da ira de Deus. Na voz de muitas
águas - abismo chamando abismo - o profeta ouvia a
voz do Criador. O mar, açoitado pela fúria de
impiedosos ventos, representava para ele a ira de um Deus
ofendido. As poderosas ondas, em sua terrível comoção,
mantidas em seus limites por mão invisível,
falavam do controle de um poder infinito. E em contraste considerava
a fraqueza e futilidade dos mortais que, embora vermes do
pó, gloriam-se em sua suposta sabedoria e força,
e colocam o coração contra o Governador do Universo,
como se Deus fosse igual a eles. As rochas lhe lembravam Cristo,
a Rocha de sua fortaleza, em cujo abrigo podia ele refugiar-se
sem temor. Do exilado apóstolo sobre o rochedo de Patmos
subiam para Deus os mais ardentes anseios de alma, as mais
ferventes orações.
A história de João fornece uma vívida
ilustração de como Deus pode usar obreiros idosos.
Quando João foi exilado para a ilha de Patmos, havia
muitos que o consideravam como tendo passado do tempo de serviço,
um caniço velho e quebrado, pronto para cair a qualquer
momento. Mas o Senhor achou próprio usá-lo ainda.
Embora banido das cenas de seus primeiros labores, ele não
cessou de dar testemunho da verdade. Mesmo em Patmos fez amigos
e conversos. Sua mensagem era de alegria, proclamava um Salvador
ressurreto, que no Céu intercedia por Seu povo até
que pudesse retornar e tomá-lo para Si mesmo. E foi
depois de haver João encanecido na obra de seu Senhor
que ele recebeu do Céu mais comunicações
que durante todos os anos anteriores de sua vida.
A mais terna consideração deve ser dispensada
a todos aqueles cujos interesses da vida estiveram ligados
com a obra de Deus. Esses obreiros idosos têm permanecido
fiéis em meio a tempestades e provas. Podem ter enfermidades,
mas possuem ainda talentos que os qualificam para permanecer
em seu lugar na causa de Deus. Embora gastos, incapazes de
levar os encargos mais pesados que os mais jovens podem e
devem levar, seus conselhos são do mais alto valor.
Podem eles ter cometido erros, mas de suas falhas aprenderam
a evitar erros e perigos; e não são ainda assim
competentes para dar sábios conselhos? Suportaram provas
e aflições, e embora tenham perdido parte de
seu vigor, o Senhor não os põe de lado. Ele
lhes dá especial graça e sabedoria.
Os que serviram seu Mestre quando a obra era difícil,
que suportaram a pobreza e permaneceram fiéis quando
poucos havia ao lado da verdade, devem ser honrados e respeitados.
O Senhor deseja que os obreiros mais jovens ganhem sabedoria,
fortaleza e maturidade pela associação com esses
homens fiéis. Que os homens mais jovens sintam que
ter entre eles tais obreiros lhes representa um alto favor.
Dêem-lhes um lugar de honra em seus concílios.
Quando os que despenderam sua vida no serviço de Cristo
se aproximam do fim de seu ministério terrestre, são
impressionados pelo Espírito Santo a referir as experiências
que tiveram em relação com a obra de Deus. O
relato de Seu maravilhoso trato com Seu povo, de Sua grande
bondade em livrá-lo das provas, deveria ser repetido
aos recém-vindos à fé. Deus deseja que
os velhos e provados obreiros permaneçam em seus lugares,
fazendo sua parte para livrar a homens e mulheres de serem
varridos pela poderosa corrente do mal, e deseja que conservem
a armadura até que lhes ordene depô-la.
Na experiência do apóstolo João sob a
perseguição, há para o cristão
uma lição de maravilhosa fortaleza e conforto.
Deus não impede a trama dos ímpios, mas faz
que suas armadilhas contribuam para o bem daqueles que em
prova e conflito mantêm sua fé e lealdade. Não
raro o obreiro do evangelho efetua sua obra em meio a tempestades
de perseguições, oposição atroz
e acusações injustas. Em tais ocasiões
lembre-se ele de que a experiência por alcançar
na fornalha da prova e da aflição paga todas
as penas de seu preço. Assim traz Deus Seus filhos
próximo de Si, para que lhes possa mostrar Sua fortaleza
e a fraqueza deles. Ele os ensina a arrimarem-se nEle. Dessa
forma prepara-os para enfrentar as emergências, ocupar
posições de responsabilidades e realizar o grande
propósito para o que lhes foram dadas as faculdades.
Em todas as épocas as testemunhas designadas por Deus
se têm exposto às perseguições
e ao desprezo por amor à verdade. José foi caluniado
e perseguido por haver preservado sua virtude e integridade.
Davi, o mensageiro escolhido de Deus, foi caçado como
um animal feroz por seus inimigos. Daniel foi lançado
na cova dos leões por ser leal a sua aliança
com o Céu. Jó foi privado de suas posses terrestres
e ferido no corpo de tal maneira que o desprezaram os próprios
parentes e amigos; contudo manteve sua integridade. Jeremias
não pôde ser impedido de falar as palavras que
Deus lhe ordenara; e seu testemunho de tal maneira enfureceu
o rei e os príncipes que o atiraram num poço
asqueroso. Estêvão foi apedrejado por haver pregado
a Cristo, e Este crucificado. Paulo foi encarcerado, açoitado,
apedrejado e finalmente entregue à morte por ter sido
fiel mensageiro de Deus aos gentios. E João foi banido
para a ilha de Patmos "por causa da Palavra de Deus,
e pelo testemunho de Jesus Cristo".
Esses exemplos de humana firmeza dão testemunho da
fidelidade das promessas de Deus - de Sua permanente presença
e mantenedora graça. Testificam do poder da fé
para enfrentar os poderes do mundo. É obra de fé
repousar em Deus na hora mais escura, sentir, embora dolorosamente
provado e sacudido pela tempestade, que nosso Pai está
ao leme. Somente os olhos da fé podem ver para além
das coisas temporais e apreciar com acerto o valor das riquezas
eternas.
Jesus não oferece a Seus seguidores a esperança
de alcançar glórias e riquezas terrestres, de
viver uma vida livre de provações. Ao contrário,
chama-os para segui-Lo no caminho da abnegação
e ignomínia. Aquele que veio para redimir o mundo sofreu
a oposição das arregimentadas forças
do mal. Numa impiedosa confederação, homens
e anjos maus se aliaram contra o Príncipe da paz. Cada
um de Seus atos e palavras revelava divina compaixão,
e Sua inconformidade com o mundo provocou a mais acérrima
hostilidade.
Assim será com todos os que se dispuserem a viver piamente
em Cristo Jesus. A perseguição e o descrédito
esperam todos os que se imbuírem do Espírito
de Cristo. O caráter da perseguição muda
com o tempo, mas o princípio - o espírito que
a anima - é o mesmo que tem dado a morte aos escolhidos
do Senhor desde os dias de Abel.
Em todos os séculos Satanás tem perseguido o
povo de Deus. Tem-no torturado e lhe dado a morte, porém
tornaram-se eles conquistadores ao morrer. Deram testemunho
do poder de Alguém que é mais forte que Satanás.
Podem os ímpios torturar e matar o corpo, mas não
podem tocar na vida que está escondida com Cristo em
Deus. Podem encerrar homens e mulheres nas prisões,
mas não lhes podem encerrar o espírito.
Mediante provas e perseguições, a glória
- o caráter - de Deus se revela em Seus escolhidos.
Os crentes em Cristo, odiados e perseguidos pelo mundo, são
educados e disciplinados na escola de Cristo. Na Terra andam
em veredas estreitas; são purificados na fornalha da
aflição.
Seguem a Cristo através de penosos conflitos; suportam
a abnegação e passam por amargos desapontamentos;
mas deste modo aprendem o que significam a culpa e os ais
do pecado, e olham para ele com repulsa. Tendo sido participantes
das aflições de Cristo, podem contemplar a glória
além da obscuridade, dizendo: "Tenho por certo
que as aflições deste tempo presente não
são para comparar com a glória que em nós
há de ser revelada." Rom. 8:18.
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