


 |
Apocalipse 2:18-29
18
Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Isto diz o Filho de
Deus, que tem os olhos como chama de fogo, e os pés
semelhantes a latão reluzente:
19
Conheço as tuas obras, e o teu amor, e a tua fé,
e o teu serviço, e a tua perseverança, e sei
que as tuas últimas obras são mais numerosas
que as primeiras.
20
Mas tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se
diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem
e a comerem das coisas sacrificdas a ídolos;
21
e dei-lhe tempo para que se arrependesse; e ela não
quer arrepender-se da sua prostituição.
22
Eis que a lanço num leito de dores, e numa grande
tribulação os que cometem adultério
com ela, se não se arrependerem das obras dela;
23
e ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão
que eu sou aquele que esquadrinha os rins e os corações;
e darei a cada um de vós segundo as suas obras.
24
Digo-vos, porém, a vós os demais que estão
em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina,
e não conhecem as chamadas profundezas de Satanás,
que outra carga vos não porei;
25
mas o que tendes, retende-o até que eu venha.
26
Ao que vencer, e ao que guardar as minhas obras até
o fim, eu lhe darei autoridade sobre as nações,
27
e com vara de ferro as regerá, quebrando-as do modo
como são quebrados os vasos do oleiro, assim como
eu recebi autoridade de meu Pai;
28
também lhe darei a estrela da manhã.
29
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito dia
às igrejas.
Nota: Tiatira representa o período que vai desde
o século VI ao XV - é a Idade Média.
Jezabel, filha de um rei sidônio, adoradora de Baal,
a qual introduziu a idolatria e corrupção
religiosa em Israel, é aqui o símbolo da apostasia
e corrupção religiosa aberta. A igreja se
paganizara.
O Grande Conflito - O Valor dos Mártires
A igreja naquele tempo encontrava-se em terrível
perigo. Prisão, tortura, fogo e espada eram bênçãos
em comparação com isto. Alguns dos cristãos
permaneceram firmes, declarando que não transigiriam.
Outros eram favoráveis a que cedessem, ou modificassem
alguns característicos de sua fé, e se unissem
aos que haviam aceito parte do cristianismo, insistindo
em que este poderia ser o meio para a completa conversão.
Foi um tempo de profunda angústia para os fiéis
seguidores de Cristo. Sob a capa de pretenso cristianismo,
Satanás se estava insinuando na igreja a fim de
corromper-lhe a fé e desviar-lhe a mente da Palavra
da verdade.
A maioria dos cristãos finalmente consentiu em
baixar a norma, formando-se uma união entre o cristianismo
e o paganismo. Posto que os adoradores de ídolos
professassem estar convertidos e unidos à igreja,
apegavam-se ainda à idolatria, mudando apenas os
objetos de culto pelas imagens de Jesus, e mesmo de Maria
e dos santos. O fermento vil da idolatria, assim trazido
para a igreja, continuou a obra funesta. Doutrinas errôneas,
ritos supersticiosos e cerimônias idolátricas
foram incorporados em sua fé e culto. Unindo-se
os seguidores de Cristo aos idólatras, a religião
cristã se tornou corrupta e a igreja perdeu sua
pureza e poder. Alguns houve, entretanto, que não
foram transviados por esses enganos. Mantinham-se ainda
fiéis ao Autor da verdade, e adoravam a Deus somente.
|
| |
O Grande Conflito - Como Começaram as Trevas Morais
Pág. 49
O apóstolo Paulo, em sua segunda carta aos tessalonicenses,
predisse a grande apostasia que teria como resultado o estabelecimento
do poder papal. Declarou que o dia de Cristo não viria
"sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem
do pecado, o filho da perdição; o qual se opõe
e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de
sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus,
querendo parecer Deus". II Tess. 2:3 e 4. E, ainda mais,
o apóstolo adverte os irmãos de que "já
o mistério da injustiça opera". II Tess.
2:7. Mesmo naqueles primeiros tempos viu ele, insinuando-se
na igreja, erros que preparariam o caminho para o desenvolvimento
do papado.
Pouco a pouco, a princípio furtiva e silenciosamente,
e depois mais às claras, à medida em que crescia
em força e conquistava o domínio da mente das
pessoas, o mistério da iniqüidade levou avante sua
obra de engano e blasfêmia. Quase imperceptivelmente os
costumes do paganismo tiveram ingresso na igreja cristã.
O espírito de transigência e conformidade fora
restringido durante algum tempo pelas terríveis perseguições
que a igreja suportou sob o paganismo. Mas, em cessando a perseguição
e entrando o cristianismo nas cortes e palácios dos reis,
pôs ela de lado a humilde simplicidade de Cristo e Seus
apóstolos, em troca da pompa e orgulho dos sacerdotes
e governadores pagãos; e em lugar das ordenanças
de Deus colocou teorias e tradições humanas. A
conversão nominal de
Pág. 50
Constantino, na primeira parte do século IV, causou grande
regozijo; e o mundo, sob o manto de justiça aparente,
introduziu-se na igreja. Progredia rapidamente a obra de corrupção.
O paganismo, conquanto parecesse suplantado, tornou-se o vencedor.
Seu espírito dominava a igreja. Suas doutrinas, cerimônias
e superstições incorporaram-se à fé
e culto dos professos seguidores de Cristo.
Esta mútua transigência entre o paganismo e o cristianismo
resultou no desenvolvimento do "homem do pecado",
predito na profecia como se opondo a Deus e exaltando-se sobre
Ele. Aquele gigantesco sistema de religião falsa é
a obra-prima do poder de Satanás - monumento de seus
esforços para sentar-se sobre o trono e governar a Terra
segundo a sua vontade.
Uma vez Satanás se esforçou por estabelecer um
compromisso mútuo com Cristo. Chegando-se ao Filho de
Deus no deserto da tentação, e mostrando-Lhe todos
os reinos do mundo e a glória dos mesmos, ofereceu-se
a entregar tudo em Suas mãos se tão-somente reconhecesse
a supremacia do príncipe das trevas. Cristo repreendeu
o pretensioso tentador e obrigou-o a retirar-se. Mas Satanás
obtém maior êxito em apresentar ao homem as mesmas
tentações. Para conseguir proveitos e honras humanas,
a igreja foi levada a buscar o favor e apoio dos grandes homens
da Terra; e, havendo assim rejeitado a Cristo, foi induzida
a prestar obediência ao representante de Satanás
- o bispo de Roma.
Uma das principais doutrinas do romanismo é que o papa
é a cabeça visível da igreja universal
de Cristo, investido de autoridade suprema sobre os bispos e
pastores em todas as partes do mundo. Mais do que isto, tem-se
dado ao papa os próprios títulos da Divindade.
Tem sido intitulado: "Senhor Deus, o Papa", e foi
declarado infalível. Exige ele a homenagem de todos os
homens. A mesma pretensão em que insistia Satanás
no deserto da tentação, ele ainda a encarece mediante
a igreja de Roma, e enorme número de pessoas estão
prontas para render-lhe homenagem.
Pág. 51
Mas os que temem e reverenciam a Deus enfrentam esta audaciosa
presunção do mesmo modo porque Cristo enfrentou
as solicitações do insidioso adversário:
"Adorarás ao Senhor teu Deus, e a Ele somente servirás."
Luc. 4:8. Deus jamais deu em Sua Palavra a mínima sugestão
de que tivesse designado a algum homem para ser a cabeça
da igreja. A doutrina da supremacia papal opõe-se diretamente
aos ensinos das Escrituras Sagradas. O papa não pode
ter poder algum sobre a igreja de Cristo, senão por usurpação.
Os romanistas têm persistido em acusar os protestantes
de heresia e voluntária separação da verdadeira
igreja. Semelhantes acusações, porém, aplicam-se
antes a eles próprios. São eles os que depuseram
a bandeira de Cristo, e se afastaram da "fé que
uma vez foi dada aos santos". Jud. 3.
Satanás bem sabia que as Escrituras Sagradas habilitariam
os homens a discernir seus enganos e resistir a seu poder. Foi
pela Palavra que mesmo o Salvador do mundo resistiu a seus ataques.
Em cada assalto Cristo apresentou o escudo da verdade eterna,
dizendo: "Está escrito." A cada sugestão
do adversário, opunha a sabedoria e poder da Palavra.
A fim de Satanás manter o seu domínio sobre os
homens e estabelecer a autoridade humana, deveria conservá-los
na ignorância das Escrituras. A Bíblia exaltaria
a Deus e colocaria o homem finito em sua verdadeira posição;
portanto, suas sagradas verdades deveriam ser ocultadas e suprimidas.
Esta lógica foi adotada pela Igreja de Roma. Durante
séculos a circulação da Escritura foi proibida.
Ao povo era vedado lê-la ou tê-la em casa, e sacerdotes
e prelados sem escrúpulos interpretavam-lhe os ensinos
de modo a favorecerem suas pretensões. Assim o chefe
da igreja veio a ser quase universalmente reconhecido como o
vigário de Deus na Terra, dotado de autoridade sobre
a igreja e o Estado.
Suprimido o revelador do erro, agiu Satanás à
vontade. A profecia declarara que o papado havia de cuidar "em
mudar os tempos e a lei". Dan. 7:25. Para cumprir esta
obra
Pág. 52
não foi vagaroso. A fim de proporcionar aos conversos
do paganismo uma substituição à adoração
de ídolos, e promover assim sua aceitação
nominal do cristianismo, foi gradualmente introduzida no culto
cristão a adoração das imagens e relíquias.
O decreto de um concílio geral estabeleceu, por fim,
este sistema de idolatria. Para completar a obra sacrílega,
Roma pretendeu eliminar da lei de Deus, o segundo mandamento,
que proíbe o culto das imagens, e dividir o décimo
mandamento a fim de conservar o número deles.
Este espírito de concessão ao paganismo abriu
caminho para desrespeito ainda maior da autoridade do Céu.
Satanás, operando por meio de não consagrados
dirigentes da igreja, intrometeu-se também com o quarto
mandamento e tentou pôr de lado o antigo sábado,
o dia que Deus tinha abençoado e santificado (Gên.
2:2 e 3), exaltando em seu lugar a festa observada pelos pagãos
como "o venerável dia do Sol". Esta mudança
não foi a princípio tentada abertamente. Nos primeiros
séculos o verdadeiro sábado foi guardado por todos
os cristãos. Eram estes ciosos da honra de Deus, e, crendo
que Sua lei é imutável, zelosamente preservavam
a santidade de seus preceitos. Mas com grande argúcia,
Satanás operava mediante seus agentes para efetuar seu
objetivo. Para que a atenção do povo pudesse ser
chamada para o domingo, foi feito deste uma festividade em honra
da ressurreição de Cristo. Atos religiosos eram
nele realizados; era, porém, considerado como dia de
recreio, sendo o sábado ainda observado como dia santificado.
A fim de preparar o caminho para a obra que intentava cumprir,
Satanás induzira os judeus, antes do advento de Cristo,
a sobrecarregarem o sábado com as mais rigorosas imposições,
tornando sua observância um fardo. Agora, tirando vantagem
da falsa luz sob a qual ele assim fizera com que fosse considerado,
lançou o desdém sobre o sábado como instituição
judaica. Enquanto os cristãos geralmente continuavam
a observar o domingo como festividade prazenteira, ele os levou,
a fim de
Pág. 53
mostrarem seu ódio ao judaísmo, a fazer do sábado
dia de jejum, de tristeza e pesar.
Na primeira parte do século IV, o imperador Constantino
promulgou um decreto fazendo do domingo uma festividade pública
em todo o Império Romano. O dia do Sol era venerado por
seus súditos pagãos e honrado pelos cristãos;
era política do imperador unir os interesses em conflito
do paganismo e cristianismo. Com ele se empenharam para fazer
isto os bispos da igreja, os quais, inspirados pela ambição
e sede do poder, perceberam que, se o mesmo dia fosse observado
tanto por cristãos como pagãos, promoveria a aceitação
nominal do cristianismo pelos pagãos, e assim adiantaria
o poderio e glória da igreja. Mas, conquanto muitos cristãos
tementes a Deus fossem gradualmente levados a considerar o domingo
como possuindo certo grau de santidade, ainda mantinham o verdadeiro
sábado como o dia santo do Senhor, e observavam-no em
obediência ao quarto mandamento.
O arquienganador não havia terminado a sua obra. Estava
decidido a congregar o mundo cristão sob sua bandeira,
e exercer o poder por intermédio de seu vigário,
o orgulhoso pontífice que pretendia ser o representante
de Cristo. Por meio de pagãos meio-convertidos, ambiciosos
prelados e eclesiásticos amantes do mundo, realizou ele
seu propósito. Celebravam-se de tempos em tempos vastos
concílios aos quais do mundo todo concorriam os dignitários
da igreja. Em quase todos os concílios o sábado
que Deus havia instituído era rebaixado um pouco mais,
enquanto o domingo era em idêntica proporção
exaltado. Destarte a festividade pagã veio finalmente
a ser honrada como instituição divina, ao mesmo
tempo em que se declarava ser o sábado bíblico
relíquia do judaísmo, amaldiçoando-se seus
observadores.
O grande apóstata conseguira exaltar-se "contra
tudo o que se chama Deus, ou se adora". II Tess. 2:4. Ousara
mudar o único preceito da lei divina que inequivocamente
indica a toda a humanidade o Deus verdadeiro e vivo. No quarto
Pág. 54
mandamento Deus é revelado como o Criador do céu
e da Terra, e por isso Se distingue de todos os falsos deuses.
Foi para memória da obra da criação que
o sétimo dia foi santificado como dia de repouso para
o homem. Destinava-se a conservar o Deus vivo sempre diante
da mente humana como a fonte de todo ser e objeto de reverência
e culto. Satanás esforça-se por desviar os homens
de sua aliança para com Deus e de prestarem obediência
à Sua lei; dirige Seus esforços, portanto, especialmente
contra o mandamento que aponta a Deus como o Criador.
Os protestantes hoje insistem em que a ressurreição
de Cristo no domingo fê-lo o sábado cristão.
Não existe, porém, evidência escriturística
para isto. Nenhuma honra semelhante foi conferida ao dia por
Cristo ou Seus apóstolos. A observância do domingo
como instituição cristã teve origem no
"mistério da injustiça" (II Tess. 2:7)
que, já no tempo de Paulo, começara a sua obra.
Onde e quando adotou o Senhor este filho do papado? Que razão
poderosa se poderá dar para uma mudança que as
Escrituras não sancionam?
No século VI tornou-se o papado firmemente estabelecido.
Fixou-se a sede de seu poderio na cidade imperial e declarou-se
ser o bispo de Roma a cabeça de toda a igreja. O paganismo
cedera lugar ao papado. O dragão dera à besta
"o seu poder, e o seu trono, e grande poderio". Apoc.
13:2. E começaram então os 1.260 anos da opressão
papal preditos nas profecias de Daniel e Apocalipse (Dan. 7:25;
Apoc. 13:5-7). Os cristãos foram obrigados a optar entre
renunciar sua integridade e aceitar as cerimônias e culto
papais, ou passar a vida nas masmorras, sofrer a morte pelo
instrumento de tortura, pela fogueira, ou pela machadinha do
verdugo. Cumpriam-se as palavras de Jesus: "E até
pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos sereis entregues,
e matarão alguns de vós. E de todos sereis odiados
por causa de Meu nome." Luc. 21:16 e 17.
Desencadeou-se a perseguição sobre os fiéis
com maior
Pág. 55
fúria do que nunca, e o mundo se tornou um vasto campo
de batalha. Durante séculos a igreja de Cristo encontrou
refúgio no isolamento e obscuridade. Assim diz o profeta:
"A mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar
preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil
e duzentos e sessenta dias." Apoc. 12:6.
O acesso da Igreja de Roma ao poder assinalou o início
da escura Idade Média. Aumentando o seu poderio, mais
se adensavam as trevas. De Cristo, o verdadeiro fundamento,
transferiu-se a fé para o papa de Roma. Em vez de confiar
no Filho de Deus para o perdão dos pecados e para a salvação
eterna, o povo olhava para o papa e para os sacerdotes e prelados
a quem delegava autoridade. Ensinava-se-lhe ser o papa seu mediador
terrestre, e que ninguém poderia aproximar-se de Deus
senão por seu intermédio; e mais ainda, que ele
ficava para eles em lugar de Deus e deveria, portanto, ser implicitamente
obedecido. Esquivar-se de suas disposições era
motivo suficiente para se infligir a mais severa punição
ao corpo e alma dos delinqüentes. Assim, a mente do povo
desviava-se de Deus para homens falíveis e cruéis,
e mais ainda, para o próprio príncipe das trevas
que por meio deles exercia o seu poder. O pecado se disfarçava
sob o manto de santidade. Quando as Escrituras são suprimidas
e o homem vem a considerar-se supremo, só podemos esperar
fraudes, engano e aviltante iniqüidade. Com a elevação
das leis e tradições humanas, tornou-se manifesta
a corrupção que sempre resulta de se pôr
de lado a lei de Deus.
Dias de perigo foram aqueles para a igreja de Cristo. Os fiéis
porta-estandartes eram na verdade poucos. Posto que a verdade
não fosse deixada sem testemunhas, parecia, por vezes,
que o erro e a superstição prevaleceriam completamente,
e a verdadeira religião seria banida da Terra. Perdeu-se
de vista o evangelho, mas multiplicaram-se as formas de religião,
e o povo foi sobrecarregado de severas exigências.
Ensinava-se-lhes não somente a considerar o papa como
seu mediador, mas a confiar em suas próprias obras para
expiação do pecado. Longas peregrinações,
atos de penitência,
Pág. 56
adoração de relíquias, ereção
de igrejas, relicários e altares, bem como pagamento
de grandes somas à igreja, tudo isto e muitos atos semelhantes
eram ordenados para aplacar a ira de Deus ou assegurar o Seu
favor, como se Deus fosse idêntico aos homens, encolerizando-Se
por ninharias, ou apaziguando-Se com donativos ou atos de penitência!
Apesar de que prevalecesse o vício, mesmo entre os chefes
da Igreja de Roma, sua influência parecia aumentar constantemente.
Mais ou menos ao findar o século VIII, os romanistas
começaram a sustentar que nas primeiras épocas
da igreja os bispos de Roma tinham possuído o mesmo poder
espiritual que assumiam agora. Para confirmar essa pretensão,
era preciso empregar alguns meios com o fito de lhe dar aparência
de autoridade; e isto foi prontamente sugerido pelo pai da mentira.
Antigos escritos foram forjados pelos monges. Decretos de concílios
de que antes nada se ouvira foram descobertos, estabelecendo
a supremacia universal do papa desde os primeiros tempos. E
a igreja que rejeitara a verdade, avidamente aceitou estes enganos.
Os poucos fiéis que construíram sobre o verdadeiro
fundamento (I Cor. 3:10 e 11), ficaram perplexos e entravados
quando o entulho das falsas doutrinas obstruiu a obra. Como
os edificadores sobre o muro de Jerusalém no tempo de
Neemias, alguns se prontificaram a dizer: "Já desfaleceram
as forças dos acarretadores, e o pó é muito
e nós não podemos edificar o muro." Nee.
4:10. Cansados da constante luta contra a perseguição,
fraude, iniqüidade e todos os outros obstáculos
que Satanás pudera engendrar para deter-lhes o progresso,
alguns que haviam sido fiéis edificadores, desanimaram;
e por amor da paz e segurança de sua propriedade e vida,
desviaram-se do verdadeiro fundamento. Outros, sem se intimidarem
com a oposição de seus inimigos, intrepidamente
declaravam: "Não os temais: lembrai-vos do Senhor
grande e terrível" (Nee. 4:14); e prosseguiam com
a obra, cada qual com a espada cingida ao lado (Efés.
1:17).
O mesmo espírito de ódio e oposição
à verdade tem inspirado os inimigos de Deus em todos
os tempos, e a mesma
Pág. 57
vigilância e fidelidade têm sido exigidas de Seus
servos. As palavras de Cristo aos primeiros discípulos
aplicam-se aos Seus seguidores até ao final do tempo:
"E as coisas que vos digo, digo-as a todos: Vigiai."
Mar. 13:37.
As trevas pareciam tornar-se mais densas. Generalizou-se a adoração
das imagens. Acendiam-se velas perante imagens e orações
se lhes dirigiam. Prevaleciam os costumes mais absurdos e supersticiosos.
O espírito dos homens era a tal ponto dirigido pela superstição
que a razão mesma parecia haver perdido o domínio.
Enquanto os próprios sacerdotes e bispos eram amantes
do prazer, sensuais e corruptos, só se poderia esperar
que o povo que os tinha como guias se submergisse na ignorância
e vício.
Outro passo ainda deu a presunção papal quando,
no século XI, o Papa Gregório VII proclamou a
perfeição da Igreja de Roma. Entre as proposições
por ele apresentadas uma havia declarando que a igreja nunca
tinha errado, nem jamais erraria, segundo as Escrituras. Mas
as provas escriturísticas não acompanhavam a afirmação.
O altivo pontífice também pretendia o poder de
depor imperadores; e declarou que sentença alguma que
pronunciasse poderia ser revogada por quem quer que fosse, mas
era prerrogativa sua revogar as decisões de todos os
outros.
Uma flagrante ilustração do caráter tirânico
do Papa Gregório VII se nos apresenta no modo por que
tratou o imperador alemão Henrique IV. Por haver intentado
desprezar a autoridade do papa, declarou-o este excomungado
e destronado. Aterrorizado pela deserção e ameaças
de seus próprios príncipes, que por mandado do
papa eram incentivados na rebelião contra ele, Henrique
pressentiu a necessidade de fazer as pazes com Roma. Em companhia
da esposa e de um servo fiel, atravessou os Alpes em pleno inverno,
a fim de humilhar-se perante o papa. Chegando ao castelo para
onde Gregório se retirara, foi conduzido, sem seus guardas,
a um pátio externo, e ali, no rigoroso frio do inverno,
com a cabeça descoberta,
Pág. 58
descalço e miseravelmente vestido, esperou a permissão
do papa a fim de ir à sua presença. O pontífice
não se dignou de conceder-lhe perdão senão
depois de haver ele permanecido três dias jejuando e fazendo
confissão. Isso mesmo, apenas com a condição
de que o imperador esperasse a sanção do papa
antes de reassumir as insígnias ou exercer o poder da
realeza. E Gregório, envaidecido com seu triunfo, jactava-se
de que era seu dever abater o orgulho dos reis.
Quão notável é o contraste entre o orgulho
deste altivo pontífice e a mansidão e a suavidade
de Cristo, que representa a Si mesmo à porta do coração
a rogar que seja ali admitido, a fim de poder entrar para levar
perdão e paz, e que ensinou a Seus discípulos:
"Qualquer que entre vós quiser ser o primeiro seja
vosso servo." Mat. 20:27.
Os séculos que se seguiram testemunharam aumento constante
de erros nas doutrinas emanadas de Roma. Mesmo antes do estabelecimento
do papado, os ensinos dos filósofos pagãos haviam
recebido atenção e exercido influência na
igreja. Muitos que se diziam conversos ainda se apegavam aos
dogmas de sua filosofia pagã, e não somente continuaram
no estudo desta, mas encareciam-no a outros como meio de estenderem
sua influência entre os pagãos. Erros graves foram
assim introduzidos na fé cristã. Destaca-se entre
outros o da crença na imortalidade natural do homem e
sua consciência na morte. Esta doutrina lançou
o fundamento sobre o qual Roma estabeleceu a invocação
dos santos e a adoração da Virgem Maria. Disto
também proveio a heresia do tormento eterno para os que
morrem impenitentes, a qual logo de início se incorporara
à fé papal.
Achava-se então preparado o caminho para a introdução
de ainda outra invenção do paganismo, a que Roma
intitulou purgatório e empregou para amedrontar as multidões
crédulas e supersticiosas. Com esta heresia afirma-se
a existência de um lugar de tormento, no qual as almas
dos que não mereceram condenação eterna
devem sofrer castigo por seus pecados,
Pág. 59
e do qual, quando libertas da impureza, são admitidas
no Céu.
Ainda uma outra invencionice era necessária para habilitar
Roma a aproveitar-se dos temores e vícios de seus adeptos.
Esta foi suprida pela doutrina das indulgências. Completa
remissão dos pecados, passados, presentes e futuros,
e livramento de todas as dores e penas em que os pecados importam,
eram prometidos a todos os que se alistassem nas guerras do
pontífice para estender seu domínio temporal,
castigar seus inimigos e exterminar os que ousassem negar-lhe
a supremacia espiritual. Ensinava-se também ao povo que,
pelo pagamento de dinheiro à igreja, poderia livrar-se
do pecado e igualmente libertar as almas de seus amigos falecidos
que estivessem condenados às chamas atormentadoras. Por
esses meios Roma abarrotou os cofres e sustentou a magnificência,
o luxo e os vícios dos pretensos representantes dAquele
que não tinha onde reclinar a cabeça.
A ordenança escriturística da ceia do Senhor fora
suplantada pelo idolátrico sacrifício da missa.
Sacerdotes papais pretendiam, mediante esse disfarce destituído
de sentido, converter o simples pão e vinho no verdadeiro
"corpo e sangue de Cristo". - Conferências Sobre
a "Presença Real", do Cardeal Wiseman. Com
blasfema presunção pretendiam abertamente o poder
de criarem Deus, o Criador de todas as coisas. Aos cristãos
exigia-se, sob pena de morte, confessar sua fé nesta
heresia horrível, que insulta ao Céu. Multidões
que a isto se recusaram foram entregues às chamas.
No século XIII foi estabelecido a mais terrível
de todas as armadilhas do papado - a inquisição.
O príncipe das trevas trabalhava com os dirigentes da
hierarquia papal. Em seus concílios secretos, Satanás
e seus anjos dirigiam a mente de homens maus, enquanto, invisível
entre eles, estava um anjo de Deus, fazendo o tremendo relatório
de seus iníquos decretos e escrevendo a história
de ações por demais horrorosas para serem desvendadas
ao olhar humano. "A grande Babilônia" estava
"embriagada do sangue dos santos." Os corpos mutilados
de
Pág. 60
milhões de mártires pediam vingança a Deus
contra o poder apóstata.
O papado se tornou o déspota do mundo. Reis e imperadores
curvavam-se aos decretos do pontífice romano. O destino
dos homens, tanto temporal como eterno, parecia estar sob seu
domínio. Durante séculos as doutrinas de Roma
tinham sido extensa e implicitamente recebidas, seus ritos reverentemente
praticados, suas festas geralmente observadas. Seu clero era
honrado e liberalmente mantido. Nunca a Igreja de Roma atingiu
maior dignidade, magnificência ou poder.
Mas "o meio-dia do papado foi a meia-noite do mundo".
- História do Protestantismo, de Wylie. As Sagradas Escrituras
eram quase desconhecidas, não somente pelo povo mas pelos
sacerdotes. Como os fariseus de outrora, os dirigentes papais
odiavam a luz que revelaria os seus pecados. Removida a lei
de Deus - a norma de justiça - exerciam eles poder sem
limites e praticavam os vícios sem restrições.
Prevaleciam a fraude, a avareza, a libertinagem. Os homens não
recuavam de crime algum pelo qual pudessem adquirir riqueza
ou posição. Os palácios dos papas e prelados
eram cenários da mais vil devassidão. Alguns dos
pontífices reinantes eram acusados de crimes tão
revoltantes que os governadores seculares se esforçavam
por depor esses dignitários da igreja como monstros demasiado
vis para serem tolerados. Durante séculos a Europa não
fez progresso no saber, nas artes ou na civilização.
Uma paralisia moral e intelectual caíra sobre a cristandade.
A condição do mundo sob o poder romano apresentava
o cumprimento terrível e surpreendente das palavras do
profeta Oséias: "O Meu povo foi destruído,
porque lhe faltou o conhecimento. Porque tu rejeitaste o conhecimento,
também Eu te rejeitarei, ... visto que te esqueceste
da lei do teu Deus, também Eu Me esquecerei de teus filhos."
Osé. 4:6. "Não há verdade, nem benignidade,
nem conhecimento de Deus na Terra. Só prevalecem o perjurar,
e o mentir, e o matar, e o furtar, e o adulterar, e há
homicídios sobre homicídios." Osé.
4:1 e 2. Foram estes os resultados do banimento da Palavra de
Deus. |
| |
|
|
|