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O fato é que oficialmente as intenções da Nova Ordem
já estavam amadurecidas no início da década de 1990, e seus termos
tinham sido codificados pelo governo Bush. Esses planos ficaram
incubados durante os oito anos de governo do democrata de Bill Clinton.
Com o retorno dos republicanos ao poder, no ano 2001, o plano poderia
ser colocado em execução. Faltava, porém, um motivo legitimador
para uma estratégia tão agressiva. Os atentados do 11 de setembro
(2001) serviram como uma luva para essa legitimação. O mundo inteiro
ficou sensibilizado com a queda das torres gêmeas e com a morte
de mais de 3 mil pessoas. A maneira como o acontecimento foi divulgado
e explorado pelos meios de comunicação ao redor do mundo proveu
a abertura necessária junto à opinião pública para a ação militar
americana em função da Nova Ordem. A imagem das torres em chamas
foi mostrada e reprisada em cores vivas, encerrando o telespectador
mundial, ao longo de meses, diante de uma sólida mensagem de legitimação.
A imagem incorporava dois enunciados subliminares bem consistentes:
(1) o terrorismo é o maior inimigo da civilização e dos EUA e (2)
é legítima toda ação para destruí-lo.
Após o 11 de setembro, portanto, ficou pavimentado o
caminho para a Nova Ordem e para a realização do projeto de poder
dos EUA. Tal é o significado do 11 de setembro que toda análise
dos fatos mundiais e do futuro do mundo, a partir dele, deve levar
em conta o seu impacto. Mesmo que o governo republicano de Bush
venha a ser substituído pelos democratas nos próximos anos, a ação
preventiva não deverá cessar porque os últimos ataques americanos
ao Iraque certamente ampliaram o ódio do mundo islâmico contra a
América capitalista. Se os EUA recuarem na investida imperialista
poderão se tornar mais vulneráveis ao terrorismo.
A guerra contra o Iraque, desferida sem a aprovação
das Nações Unidas, foi motivo de análises e conjecturas em todo
o mundo. Em artigo publicado pela Folha de S. Paulo, o filósofo
esloveno Slavoj Zizek disse que o mundo está “no meio de uma revolução
silenciosa” na qual as regras não-escritas (da democracia e dos
direitos humanos) estão mudando ou sendo superadas. Sobre a sociedade
que vai emergir dos escombros da guerra contra o terrorismo desferida
pelos EUA, Zizek indica que ela certamente deverá retomar a intolerância
e o autoritarismo, por pouco relegados ao passado primitivo da civilização.
As razões da guerra, ou a falta de razões aceitáveis,
são o ponto crucial desse tipo de análise. Os americanos alegavam
que o governo de Saddan tinha armas químicas e biológicas de destruição
em massa. As armas não foram ainda encontradas. O norte-americano
Scott Ritter, que dirigiu as equipes de inspeção da ONU, encarregadas
de desarmar o Iraque entre os anos 1993 e 1998, afirmou em entrevista
à revista Época que essas armas não existem por que foram
destruídas, sendo que, até o ano de 1998, 95% delas estavam desfeitas.
Segundo Ritter, o propósito real da guerra é a ampliação do “imperialismo
americano” e a “implantação de uma nova doutrina no mundo”, segundo
a qual quem deve decidir as questões internacionais não é mais a
ONU, mas os EUA.
Se a guerra não possui justificativa convincente na
questão das armas químicas ou no petróleo, qual foi então sua motivação
principal? Devemos questionar ainda em que consiste exatamente o
projeto de poder mundial do governo Bush. O que ele pretende? De
onde vem sua força? Como uma nação pode colocar parte significativa
de sua economia num projeto de guerra que se volta hoje contra diversos
outros países? Antes mesmo de terminar a guerra no Iraque, os chefões
do Pentágono alertaram o Irã, a Síria e a Coréia do Norte, afirmando
que eles precisam aprender a lição dada em Saddan.
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