A era messiânica

Provavelmente a motivação maior dessa guerra e da própria política imperialista americana seja algo que foi tratado apenas superficialmente pelos meios de comunicação no Brasil – uma “utopia” religiosa, entesourada na crença evangélica americana.

Sabe-se que George W. Bush e seus assessores diretos são religiosos evangélicos. O governo Bush levou, segundo reportagens da News Week e de Veja, uma atmosfera religiosa à Casa Branca, que atualmente tem hora para orar e para ler a Bíblia. O próprio presidente americano afirmou que a guerra contra Saddan era um confronto do bem contra o mal. Logo após os atentados de 11 de setembro, ele disse ter convicção de ter sido chamado por Deus para uma tarefa decisiva.

Para entender os ideais desses religiosos que controlam o poder da maior nação do planeta, é preciso saber que eles têm uma esperança e uma expectativa futura, de natureza religiosa. Eles crêem que Jesus Cristo vai voltar à Terra para fundar um reino terreno eterno. Nessa esperança, estão aliados os evangélicos de orientação dispensacionalista (que interpretam as profecias escatológicas à luz do Antigo Testamento) e judeus que aguardam a vinda do Messias libertador. Ambos os grupos entendem que o Messias vai descer em Jerusalém, no monte das Oliveiras, de onde será anunciado a todo o mundo.

O momento atual se reveste de extraordinária importância para esses religiosos porque eles crêem que os tempos messiânicos se iniciaram com a restauração do Estado de Israel. Crêem também que o reino de Deus, a ser estabelecido pelo Messias tem uma dimensão terrena, ou seja, será realizado nesta terra e com a colaboração dos seres humanos. Os seres humanos precisam preparar o caminho do Messias. A restauração do Estado de Israel (1948), pelos aliados após a Segunda Guerra, e a manutenção do apoio incondicional dos EUA a Israel devem ser entendidas dentro dessa perspectiva e dessa esperança que une judeus e americanos, crentes na breve vinda do Messias.

 

Reportagem da revista Veja de 26 de fevereiro afirma que a vertente evangélica em que Bush se apóia crê que a recriação do Estado de Israel é um sinal messiânico. A volta dos judeus à Palestina seria o primeiro passo no cumprimento dos tempos messiânicos prometidos no Antigo Testamento. Esses religiosos entendem também que, antes do Messias, vem o anticristo, que pode ser Bin Laden, Saddan, etc, cujo objetivo é dificultar ou impedir o estabelecimento do reino messiânico. O governo Bush é orientado por essa esperança, segundo a qual a vinda do Messias está próxima, mas depende da ação humana no sentido de preparar esse reino e de garantir as condições de sua instauração. Nesse sentido, a guerra é santa e os guerreiros são instrumentos divinos para eliminação de todo poder opositor. Reportagem da revista Época, de 31 de março, informou que outra crença da vertente religiosa da direita americana é que a vinda do Messias poderá ser apressada pela reconstrução do templo de Salomão. Mas para isso os americanos teriam de derrubar a mesquita de Al-Aqsa. A simples existência dessa idéia estremece o mundo islâmico.

Essa dimensão religiosa da Nova Ordem é capaz de atribuir um significado convincente à ação intolerante dos americanos. A esperança messiânica explica a relação incondicional dos EUA com Israel e justifica o empenho fervoroso de Bush na guerra contra o terrorismo. Na verdade, esse fato revela que existe uma utopia, uma esperança futura positiva, que sustenta os ideais da Nova Ordem. Uma utopia forte sempre foi a motivação de ações fervorosas e revolucionárias, como no caso da Revolução dos Sovietes, em 1917, com a utopia comunista; do Nazismo, com a utopia de uma “raça pura”. O reino messiânico, a ser consolidado no futuro, com a colaboração dos americanos, preparando a vinda do Cristo, parece assumir o papel de uma utopia, forte o suficiente para motivar o projeto da Nova Ordem Mundial.

 


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