A ameaça da intolerância

Feitas essas considerações, devemos questionar sobre qual será a situação daqueles que descrêem desse reino messiânico conforme vislumbrado pelos evangélicos americanos e judeus. Como serão qualificados eventuais cristãos que não compartilharem dessa mesma expectativa acerca da forma como o reino de Deus será estabelecido? Talvez mais necessário ainda seja saber se esses cristãos eventualmente poderão ser comparados ou confundidos com os terroristas islâmicos.

Após a guerra contra o regime dos talibãs, no Afeganistão, o presidente Bush disse que “há outros terroristas que ameaçam os Estados Unidos e nossos amigos e existem outros países dispostos a patrociná-los”. Ele alertou ainda:  “Não teremos paz enquanto não forem derrotados”. Poucos meses após os atentados de 11 de setembro, a CIA já havia prendido 360 suspeitos de terrorismo em vários países do mundo, buscando chegar às organizações terroristas. Vários focos suspeitos foram localizados ao redor do mundo.

A guerra contra o terrorismo levou à criação de tribunais militares especiais para julgar estrangeiros acusados de terrorismo, mediante decreto do presidente George W. Bush, no dia 17 de novembro de 2001, medida considerada a mais dura e mais delicada dessa empreitada americana. A revista Veja informou que, os presos suspeitos “ficam sob controle do Departamento de Defesa, nos Estados Unidos ou em outros países, sem acesso a nenhuma instância da Justiça regulamentar”. Se forem condenados por dois terços dos integrantes do tribunal, os presos estarão sujeitos a execução sumária. A revista dizia na época que “o presidente dos EUA tem sido acusado de assumir poderes ditatoriais para encarcerar e executar cidadãos estrangeiros”.

Esses tribunais, aliados à estratégia de defesa preventiva, sugerem que a Nova Ordem poderá instaurar um regime de severa intolerância. É cedo para dizer que a simples discordância dos ideais da Nova Ordem e do esperado reino messiânico seja motivo suficiente para que certos religiosos cristãos venham a ser tratados eventualmente como os terroristas.

Mas não se pode esquecer o acentuado pragmatismo americano. Eles querem derrotar os terroristas antes de eles agirem. Nos anos 1990, quando baixaram os números da criminalidade e da delinqüência nos EUA, a liberação do aborto foi considerada uma decisão acertada. Algumas pessoas afirmaram que, com o aborto, os americanos passaram a matar os criminosos antes que eles nascessem. Cheios de estatísticas, os americanos já haviam descoberto que a maioria desses delinqüentes vinha de gestações indesejáveis.

Será possível que o pragmatismo americano venha a sugerir também a estratégia de eliminar futuros terroristas antes que eles se tornem terroristas? Quem seriam essas pessoas? Grupos religiosos que têm crenças parecidas com aquelas defendidas pelos terroristas islâmicos, que consideram os EUA o grande Satã?

Como os americanos considerarão alguma denominação religiosa, que sediada em Washington, afirma que Estados Unidos são a segunda besta do Apocalipse? Esse conceito não é bastante parecido com a idéia que os islâmicos mantém acerca de Tio Sam? O livro O Grande Conflito, de Ellen White, afirma claramente a identidade dos EUA com a segunda besta do Apocalipse, na página 584.

Esse livro revela, apoiado nas palavras do apóstolo Paulo, em 2Ts 2, que o próprio Satanás imitará a vinda de Cristo, e receberá o culto dos seres humanos. Ele se manifestará com certa medida de glória e procurará recomendar seu reino a todos os seres humanos (ver O Grande Conflito, 593 e 629). Diz ainda que “quando a proteção das leis humanas for retirada dos que honram a lei de Deus, haverá, nos diferentes países, um movimento simultâneo com o fim de destruí-los. [...] Resolver-se-á dar em uma noite um golpe decisivo, que faça silenciar por completo a voz de dissentimento e reprovação” (O Grande Conflito, 635). Essas predições indicam que a intolerância da “besta” chegará ao ponto de pretender silenciar mesmo aqueles que manifestam reprovação e discordância só por sua voz.

Pode estar se tornando intrigante o que o jornalista Clifford Goldstein escreveu no livro O Dia do Dragão, na página 11, quando afirma que o livro “O Grande Conflito sem dúvida desencadeará uma tempestade de perseguições” contra os que discordam do que está sendo defendido e realizado pelos americanos.

Os americanos poderão num futuro próximo detectar grupos em todo o mundo que mantêm crenças negativas acerca dos Estados Unidos. Dentro de uma estratégia preventiva, esses grupos fundamentalistas poderão ser qualificados como terroristas potenciais. Pois, embora sua postura não seja suspeita, suas idéias são. Levada ao extremo, a estratégia de defesa preventiva apoiada numa visão pragmática poderá fazer os americanos entender ser mais adequado cuidar dessas pessoas antes que elas se tornem terroristas de fato.

Isso é uma especulação. E, de fato, seria apenas especulação se já não estivesse profetizado que a “besta de chifres de cordeiro e que fala como dragão” (conforme Apocalipse 13) irá condenar à morte aqueles que optarem por obedecer a Deus em vez de seguir a besta.

Os acontecimentos dessa guerra contra o terrorismo, iniciada após o 11 de setembro, poderão passar para a história como novos passos trôpegos da civilização. Pode acontecer de essa guerra finalizar-se nos próximos anos, sem nenhum messias se apresentando ao mundo. Que ela possa terminar nos eventos preditos no Apocalipse 13, pode de fato ser apenas uma especulação. Todas essas possibilidades, porém, não nos devem fazer esquecer as palavras de Cristo: “Vigiai [...] porque não sabeis o Dia. [...] Ficai também apercebidos; porque numa hora em que não penseis virá o Filho do homem” (Mt 24:42-44).

 


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