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  SEMINÁRIO ADVENTISTA LATINO-AMERICANO DE TEOLOGIA

 

INSTITUTO ADVENTISTA DE ENSINO DO NORDESTE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EXEGESE SOBRE SANSÃO E A PORTA ARRANCADA DE GAZA

 

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Um Relatório

 

Apresentado em cumprimento Parcial dos

 

Requerimentos para o curso Livros Históricos

 

Estudo Dirigido Individual

 

 

 

 

 

 

por

 

Carlos Alberto de Souza Magalhães

 

Março de 2000


exegese

o valor da porta na cultura canaanita

A Bíblia apresenta vários comportamentos culturais típicos à época em que descreve, como por exemplo, a porta de uma cidade. Não se trata simplesmente de um artigo de primeira necessidade para  um povo que vivia num sistema feudal primitivo[1]. Estas construções caracterizavam-se como pequenos castelos capazes de abrigar algumas centenas de camponeses.

Na sociedade moderna, a porta tem importância protetora, mas na cultura veterotestamentária, era mais que isto.

Algumas referências são feitas nas Escrituras Sagradas que contêm indícios do uso da porta para afins sociais.

No Salmo 87:2 encontra-se: “O Senhor ama as portas de Sião mais do que todas as habitações de Jacó.” Interessante é notar que o valor dado à porta indica que ela continha um significado além do normal. A  pergunta é inevitável: porquê o Senhor ama  mais a porta  do que as moradas de Jacó. Simples. Por que o salmista está se referindo ao costume de os reis sempre se colocarem à porta da cidade ( II Sam.18:24) ; portanto ele, como rei de Israel, era o amado do Senhor. Isto faz parte da cultura canaanita, pois o rei era tido como deus, ou no caso de Israel, como representante de Deus.  Davi não usa de arrogância ao declarar ser especial para Deus. Não se vangloria, e  afirma implicitamente suas convicções.  

Em Provérbios 8:3 lê-se: “Da banda das portas da cidade, à entrada da cidade e à entrada das portas está clamando: ... .”   Este texto afirma que a sabedoria clama às portas por ser este um lugar de reunião dos líderes. Salomão afirma que a sabedoria busca  pessoas que queiram conhecer o equilíbrio para realizar um julgamento não parcial. Este comportamento é verificável já que era costume dos anciãos se reunir na porta da cidade para julgar e decidir assuntos públicos (Rute 4:1 e Prov.31:23).[2]

 

SANSÃO ARRANCA E CARREGA A PORTA

        

A pergunta que vem à tona é: Por quê motivo Sansão além de arrancar a porta da cidade de Gaza, carrega-a até um monte próximo? Teria este ato algo mais a expressar do que simplesmente uma fuga?

Primeiro, é importante analisar o que o texto expressa. Em Juízes 16:1-4 encontra-se: “E foi-se Sansão a Gaza, e viu ali uma mulher prostituta, e entrou a ela. E foi dito aos gazitas: Sansão entrou aqui. Foram, pois, em roda e toda noite lhe puseram espias à porta da cidade; porém toda noite estiveram sossegados, dizendo: Até à luz da manhã esperaremos; então, o mataremos. Porém Sansão deitou-se até meia-noite, e a meia-noite se levantou, e travou das portas da entrada da cidade com ambas as umbreiras, e juntamente com a tranca as tomou, pondo-as sobre seus ombros; e levou-as para cima, até ao cume do monte que está defronte de Hebrom .”[3]

Buttrick[4] afirma que o propósito do episódio é para relatar uma outra experiência de Sansão, pintando sua super força.  Gaza, a cidade do extremo sul das cinco cidades da Filístia, era trinta e oito milhas ao oeste de Hebrom e aproximadamente a alguma distância de Zorá. O objetivo da viajem do herói não é descoberta. Em Gaza, Sansão tem relações com uma prostituta, um fato que lança alguma luz na moralidade dos dias e revela os caprichos do herói e escravização da paixão. Do nosso ponto de vista a moral foi excedentemente baixa. Mas o escritor não mostra desaprovação. A moral de Sansão não foi fora do ordinário, e o historiador, obviamente, encantou-se com sua coragem.

Tão logo os gazitas foram avisados da presença de Sansão, eles deixaram uma cilada para ele. Não é provável que a guarda tenha sido deixada na porta da cidade , pois eles não teriam sido acordados pela comoção do puxar das portas, barras e tudo, afinal estariam em alerta. Pode ser que a guarda era localizada na casa da prostituta e, confiando na segurança da porta da cidade, eles tinham tudo quieto à noite.

Cundall e Morris[5] concordam em parte com esta  posição e alegam que a dupla referência a “toda noite”, tem causado desconfiança de sua integridade, visto que um guarda postado nos portões da cidade perceberia quando Sansão tentasse escapulir de forma assim repentina. Não existe o menor indício de um encontro com um guarda; na verdade, o ponto central da história é que os filisteus foram tomados de surpresa. A primeira expressão “toda noite” deveria ler-se “o dia todo”. O Biblical Commentary on the old Testament[6], acredita que foi um erro do copista. O sentido seria, então, que os filisteus guardaram os portões o dia todo, confiantes em que a fortaleza de seus portões reteria a vítima vigiada, à noite, assim, relaxaram a vigilância, julgando que poderiam executar seu propósito na manhã seguinte. Por outro lado os guardas no portão poderiam Ter relaxado sua vigilância com o passar das horas e, depois, ficaram paralisados de terror, e incapazes de qualquer ação, diante do estranho método de Sansão sair da cidade. 

 De acordo com uma antiga tradição, Sansão teria carregado a porta durante meia hora ou 45 minutos, pisando em  areia profunda sobre a estrada até o alto do monte “el Montar”, onde deduz-se que ele tenha levado-a[7]. Um feito que só Sansão poderia realizar.

O motivo que o fez carregar fica claro quando se está a par de todos estes recursos históricos e fica evidente por quê do entusiasmo do historiador. Sansão ao arrancar a porta realiza sua fuga e para demonstrar sua força e atrevimento, carrega o portão como se estivesse a afrontar o rei dos filisteus e os líderes príncipes da cidade. Sua mensagem era que nada poderia detê-lo e desafiava-os a tentar. Nenhuma cidade estaria totalmente segura estando ele dentro ou fora.

No verso 5 do mesmo capítulo, pode-se encontrar os príncipes, agora com nova estratégia. Não tentam destruí-lo com uso da força, mas onde tinham certeza que Sansão cairia - na sua fraqueza moral. Enquanto o herói os desfiava com a força, eles o venciam com o intelecto.

Assim é o cristão que acha ser forte o suficiente para vencer qualquer provação, sendo legalista zeloso. Ele realmente exerce sua força de vontade e consegue vencer algumas batalhas externas, sendo até exemplo público de integridade e religiosidade, mas é no intelecto que o inimigo consegue derrubá-lo. Nos pensamentos ocultos acariciados que acabam por ser sua perdição.

 

BIBLIOGRAFIA



[1] Os senhores eram donos de construções que abrigavam seus vassalos nos tempos de guerra.

[2] Biblical Commentary on the Old Testament. Vol.VI.  W.M.. B. Eerdmans Publishing Company, Michigan USA. 1960.p.487 ; Arthur E. Cundall e Leon Morris. Série Cultura Bíblica. Mundo Cristão e Vida Nova. SP. 1968. p.280.

[3] João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Corrigida de 1995. Sociedade Bíblica do Brasil. S.P.

[4] George Arthur Buttrick and others. The Interpreter’s Bible. New York, Abingdon- Cokesbury Press, Nashiville, 1939.p. 791

[5] Arthur E. Cundall & Leon Morris. Juízes e Rute, Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. Mundo Cristão e Vida Nova. SP. 1968. P. 166-7.

[6] Ibid. 1 .p. 419.

[7] Ibid. 1.p. 418