EXEGESE SOBRE 1 JOÃO 1: 10 E 3: 6

 

I S. JOÃO 1: 10

 

“Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.”

 

I S.JOÃO 3: 6

 

“Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu e nem o conheceu.”

 

Em princípio estes versos parecem se contradizer. O primeiro fala que devemos admitir que somos pecadores senão estamos fazendo Deus se tornar mentiroso e declaramos assim que não guardamos seus preceitos. Já por outro lado, João diz que é possível não pecar se convivermos com Cristo.

Como seria possível entender tal contradição do apóstolo? De início, é bom lembrar que o método de estudos adotado pela IASD é o método gramático histórico. Este visa buscar a verdadeira situação e o contexto psico-sócio-político contemporâneo da passagem bíblica, através do estudo da gramática e da história. E será por ele que se encontrará a solução.

O Comentário Bíblico Adventista afirma que s. João 1:10 é o 3º verso de uma seqüência mais específico na reivindicação  para santidade.

Quando João escreveu, ele e toda a igreja primitiva sofriam por causa da inseminação doutrinária provocada pelos falsos mestres que estavam a perverter o evangelho pregado.

Os gnósticos era uma linha teológica deturpada. Eles “negavam a ‘pecaminosidade essencial’, com base em diversas considerações:

1.      Diziam eles que a alma humana é pura, por ser emanação de Deus, ao passo que o corpo físico é pecaminoso, por ser participante da matéria, a qual é o princípio do pecado. Assim, da mesma forma que o ouro pode ser mergulhado na lama sem perder o valor, a alma pode ser mergulhada na lama do corpo sem se contaminar. Portanto, o corpo, mesmo abusando do ascetismo ou pelos excessos de imoralidade, não afeta a alma que é o homem essencial e sem pecado.

2.      Achavam-se superiores  aos padrões morais, por pretenderem estar ligados intimamente com Deus (unidade).

3.      Achavam-se sem pecado por causa do (suposto) avanço espiritual que os tornara perfeitos”. [i]

 

Dentro deste combate teológico, João argumenta que é muito fácil dizer mas é difícil provar que não tinham pecado. Logo ele usa o espelho da lei que é a personalidade de Cristo. Como pode dizer que têm amizade com Deus se estão em Trevas? É claro que ninguém, senão somente Deus pode ler o coração humano, mas dizer que está  em um nível superior e não peca, é inconcebível por causa suas ações.

Romanos 3:23 diz que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Baseado nesta afirmação, os gnósticos faziam  de Deus um mentiroso.

 A expressão grega “ amartian ouk ecomen ” ( hamartían uk éxomen) , pode ser lida como “nós não temos pecado”. Pecado considerado com ato.[ii]

“A declaração ‘não tem pecado’ é parecido com ‘não tem estado pecando’. A diferença está na forma dos verbos, de acordo com a diferença entre a idéia de quantidade de ‘pecado’ (atos) e a idéia de multidão de  ‘nossos pecados’(condição) ”.[iii] Grifo, parênteses e conteúdos acrescentados.

 

Portanto João, no primeiro verso, está dizendo aos gnósticos que a palavra de Deus (a divina mensagem) não está neles. “A verdade é a substância da palavra. A palavra leva verdade. A palavra nasce e move o homem e permanece nele. O homem também permanece na palavra”[iv]. Como podiam eles dizer-se sem pecado se não mudaram sua conduta moral através de Jesus Cristo, o único que pode transformar.

 

I JOÃO 3:6

 

“Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu nem o conheceu”.

 

No exemplo anterior João se dirige a falsos mestres que alegam santidade à parte de Deus. Neste caso, sua atenção não está voltada para eles, mas para os cristãos. Seu desejo é fortalecer. Sua visão não está sobre os atos pecaminosos, mas sobre uma vida longe de Deus que está em pecado (condição, situação).

“A   palavra ‘permanece’ deve sugerir uma ativa boa vontade para permanecer em união com Cristo. A forma do verbo Grego implica ‘continuamente’- todo aquele que continua a permanecer”.[v]

Pode-se utilizar ainda a forma “não continua a pecar” ou “não peca habitualmente”, “como a forma do verbo grego expressa. O apóstolo está aqui falando de habitual pecado, não de ocasional falha o qual todo cristão é propenso a fazer. João sabe que os cristãos são seduzidos no pecado, mas ele também conhece o remédio para cada falha. Aqui ele está falando da declaração ideal que é atingível  por aquele que habitualmente permanece na presença protetora do Salvador.[vi] Tal declaração é a que os gnósticos deveriam defender.

“Cada pessoa que é convertida em Cristo pela fé e pela fé permanece em Cristo, simplesmente não vai pecando”[vii] 

CONCLUSÃO

 João, nestes textos não está se contradizendo. Está lidando com situações diferentes. No primeiro ele combate uma falsa doutrina e se refere a pecados ações. No segundo, o apóstolo está encorajando os seguidores de Cristo a permanecer nEle  para vencer o pecado que vive no corpo (condição). Há uma recurso de linguagem poética utilizada pelos hebreus. O paralelismo por contraste[viii] que visa fixar uma mensagem com maior intensidade e impacto.

“Permanecer é mais do que estar nEle, visto que representa uma condição mantida pela comunicação com Deus e por fazer habitualmente a sua vontade”[ix].   



[i] Champlin, Russel Norman, Ph.D. O Novo Testamento Interpretado, Vol.VI. Ed Milenium. 2ª ed. 1980. P. 229 

[ii] Vincent, Marvin r., D.D . Word Studies in the New testament. Vol. II. MacDonald Publishing Company. Mclean, Virgínea. P. 323

[iii] Lensk, R.C.H. . The Interpretation of the Epistles of St. Peter, St. John and St. Jude. The Wartburg Press. Columbus, Ohio. 1945. Pp. 394 e 395.

[iv] Ibid. ii.

[v] SDABC.P.651

[vi] Ibid.

[vii] Ibid. iii. P. 458.

[viii] A Segunda linha apresenta a mesma verdade de forma invertida.

[ix] Ibid.ii.